Friday, 25 September 2009

Helena

Há já um bom par de anos que Helena nada sabia de Clara . Os seus caminhos cruzaram-se pela primeira vez por alturas de um jantar de antigos colegas de curso ocorrido num restaurante típico da Mouraria em Lisboa. A presença de Clara cativou-a desde o primeiro olhar e a conversa fluiu tão naturalmente e com uma intensidade tal que nem se deram conta de que, pouco a pouco, se abstraíam da presença do restante grupo. As suas personalidades pareciam "encaixar" perfeitamente uma na outra. Passaram essa noite a conversar até altas horas da madrugada, e a cada momento iam encontrado cada vez mais pontos em comum. Despediram-se cordialmente com a promessa de se voltarem a ver em breve.Depois disso, a vida retomou o seu curso normal, as memórias de situações passadas a esbaterem-se na correria do dia a dia, e Clara esfumou-se lentamente até ao esquecimento.

Recentemente, em mais uma tarde bem passada na casa de uns amigos, Helena descobriu uma foto de Clara tirada à alguns meses; Ficou deslumbrada...
Estava linda, preparada para uma noite de divertimento, numa toillete impecável, e o seu sorriso doce hipnotizou-a de imediato. Regressaram as lembraças de uma companhia agradável, da sintonia de ideias, dos seus gestos delicados e tão femininos. Helena perguntou por ela. Disseram-lhe que teria tido alguns problemas pessoais que a levaram a sair com cada vez menos frequência, até deixar de aparecer por completo. Aparentemente ninguem sabia do seu paradeiro.

Fiquou demoradamente a contemplar a fotografia, retirando prazer das memórias ainda vivas da fugaz presença na sua vida, tentando disfarçar como podia a admiração nutrida por ela, e a frustração pelo contacto perdido. Um pensamento proibido emergiu do fundo do seu ser: secretamente desejava-a, tanto fisica como emocionalmente. Queria perder-se ali mesmo e encontrar-se nos seus braços. Viajou pela imagem, acariciou-a com os olhos, e desejou-a ainda mais. Porém, e como forma de controlar esse súbito interesse obssessivo antes que alguém percebesse que algo se passava, Helena lembrou-se que isso muito provávelmente nem estaria nos planos de Clara e que se lhe revelasse tal desejo correria o risco de acabar súbitamente com uma linda amizade, que ainda nem tinha efectivamente progredido para alem daquele contacto inicial. Alem disso havia Fernando, seu marido, e uma relação longa, próspera e estável; Fernando nunca lhe tinha dado a minima razão que justificasse minimamente a quebra desse contracto, o fim do casamento. Mas, pondo a mão na consciência, esta ligação estava cada vez mais distante, e de satisfatória já ia tendo pouco. Helena não se sentia totalmente infeliz. Contudo, tambem não se sentia realizada, e essa percepção ia ganhando terreno dia após dia.

Uma vez mais, o tempo encarregou-se de paulatinamente desviar essas memórias para o fundo do seu consciente, onde não causariam estorvo às necessidades básicas de quem tem uma vida bastante activa. Mas a necessidade de ter uma amizade com tal nível de envolvimento permaneceu sempre, com mais ou menos intensidade consoante a disposição do momento, e sempre com mais força nas alturas em que se sentia só, incompreendida, ou simplesmente desafiada por gente cínica que se afirma amiga num primeiro momento, mas que de amigos nem o nome poderiam exibir. Não da amizade no sentido de uma relação duradoura; Essa já existia com Fernando e estava relativamente confortável com ela; não abdicaria dela por motivos fúteis. Simplesmente não se sentia capaz de chegar a outros níveis de relacionamento pessoal, nas quais estaria incluido todo o seu conjunto de secretas preversões, desejos e fantasias, só confessáveis a (e partilhados por) uma amizade de qualidade superior, onde a confiança e a integridade nunca são postas em causa. Helena voltou-se para a internet como modo de busca por alguem que partilhasse os mesmos sentimentos, que soubesse exactamente o significado das suas angústias, sem que a recriminasse em acto-contínuo, e que simultaneamente lhe proporcionasse a vazão dos seus fetiches. As leves aproximações ao tema que Helena raramente fizera junto de Fernando resultavam sempre no efeito contrário ao pretendido. Fernando não compreendia nem aceitava tais jogos de sedução. Para ele sexo é apenas sexo, não precisando de grandes floreados: chega-se, faz-se e acabou. Tudo o resto é superfulo.

O anonimato da internet tem a sua utilidade, e neste caso permitiu-lhe publicar um perfil de acordo com a sua secreta personalidade, tal e qual existe debaixo da sua capa de pessoa normal e sociavelmente aceite, com muitas das suas desejadas formas de ser e agir expostas abertamente e sem receio. Sempre se sentira atraída pelas prácticas do Bondage mais suave; A manipulação consentida e partilhada dos sentidos, onde o corpo é o templo perdido que se decora, explora e se usa completamente e sem tabus de nenhuma espécie, era para si a expressão máxima do sexo.




Esperou. Como numa praia, as ondas trazem e levam uma miríade de mais gente anónima que inicialmente parece preencher os seus requisitos, gente que se apresenta carinhosa ou emboída das mais altas intenções, indiferente ou mal-criada, de tudo um pouco conheceu e consequentemente ignorou. Ninguem parecia possuir essa espantosa capacidade de a surpreender pela positiva. Ao fim de algum tempo estava já resignada com o previsível e naturalmente péssimo resultado da demanda. Não lhe agradava a promiscuidade, e pretendia um tipo de relação duradoura, que a complementasse sem sobressaltos.

Um destes dias, como já se tinha tornado seu hábito, Helena voltava à internet, ao seu antro de pecado preferido, e enquanto navegava distraídamente por entre os milhares de perfis de gente próxima das suas preferências, deparou-se com uma imagem muito familiar. Uma foto de Clara! ... a mesmíssima que a tinha deixado em tempos a sonhar acordada. Desconfiada pensou: “Pode ser de alguem que tenha tido acesso à foto e a esteja a usar indevidamente como avatar”, situação que não é de todo incomum neste meio. Mas um impulso irresistível levou Helena sem pensar duas vezes a enviar uma mensagem a alguem que se identificava como Roxanne; queria ter a certeza de que esta tal de Roxanne seria de facto Clara. Na mensagem que lhe enviou, apenas referiu que gostaria muito de trocar com ela algumas ideias, um contacto de retorno e nada mais. A utilização do seu habitual nickname “Hydra”, garantia-lhe a necessária segurança, omitindo qualquer outra referência que a pudesse denunciar em caso de engano, apesar da foto no perfil ser de facto a sua, embora pouco reveladora.

A resposta veio no dia seguinte. Expectante, abriu a mensagem. Leu o seu conteúdo uma e outra vez procurando sinais que indicassem estar na presença de uma fraude. Aparentemente nada de anormal. Dizia que tinha visto o seu perfil publicado no mesmo site e que se tinha identificado com ele; que tambem procurava alguem nos mesmos moldes para futura amizade. Através do contacto que Helena lhe tinha deixado, pedia permissão para falar consigo através de um programa de mensagens instantaneas. Na resposta, aceitou o pedido, ficando à espera do seu contacto. Mas ainda não estava totalmente convencida. Afinal, não existem coincidências, apesar do que se diz.

Dias depois uma mensagem instantanea aparece no ecran do seu portátil sob o nome de uma tal de “lady_slave”, nickname de que se recordava vagamente, e que cohabitava habitualmente em paragens comuns onde o estilo de vida alternativo impera. Indiferente, respondeu ao habitual "olá tudo bem"; era mais uma mensagem tipica, similar a centenas de outras que recebia por dia no programa de chat, quase sempre inicio de uma conversa penosamente chata, sem surpresas, e rápidamente terminada antes mesmo de começar, significado de pura perda de tempo.
Do outro lado veio a resposta "Olá , chamo-me Clara". Ainda aturdida e confusa pela aparente incongruência entre um nickname obscuro e o objecto do seu desejo, iniciou um diálogo cauteloso mas afável.
As suas preces teriam sido ouvidas, e não foi preciso esperar muito para ter finalmente a certeza: era ela, a “sua”Clara. Depois de alguns anos de interregno, ei-la de volta. A felicidade de Helena alterou-lhe de imediato o discurso, abandonando a distante frieza inicial, passando a agir como uma miuda de 7 anos, excitadíssima por rever alguem muito querido e que não via há muito tempo.

Após um primeiro momento de excitação, caiu em si: tambem Clara partilhava dos seu gostos e tambem ela procurava por alguem que os satisfizesse. Estava implicito que o motivo inicial que as aproximara anónimamente tinha a ver com a realização de fantasias numa perspectiva de alguem que teria necessáriamente de ser posto à prova, e sem qualquer tipo de garantia de que seria digna de confiança. Esse percurso já não seria necessário agora, e para todos os efeitos, este reencontro bateu todas as mais loucas expectativas de Helena. Afinal, e apesar de antes já terem falado sobre tantos assuntos, nunca tiveram a ousadia nem a tentação de revelar uma à outra os seus mais intimos segredos, que agora descobriram mútuos. Estavam agora reunidas todas as condições para darem finalmente sequência à satisfação dos seus desejos mais secretos, e logo com quem mais ardentemente desejavam. Marcaram encontro para o dia seguinte. Talvez o primeiro de muitos, e quem sabe, o próprio inicio da eternidade, juntas. Já não estavam sózinhas.

Sabiam agora que já pairava no ar algo mais do que simples amizade no momento em que se conheceram anos atrás, algo que as transcendia na altura, e que as maravilhava no presente. Ouro sobre Azul. Helena reflectiu: “Será esta a cor da paixão?”

Friday, 14 August 2009

Daniela

Daniela aproveitou uma pausa no trabalho da manhã e foi até ao bar da empresa onde trabalha à procura do terceiro café do dia. Os primeiros dias depois das férias de verão são sempre um martírio. Principalmente quando são as primeiras férias a sério depois de uma mudança de emprego. Absorvida nos seus pensamentos, sonhando acordada com a memória recente da sua rotina de férias, sobressaltou-se quando sentiu um dedito insolente a tocar-lhe o ombro.
“Oh porca suja! Já não falas às amigas?” Antes mesmo de reconhecer a voz que a chamava em tom de provocação amigável, Daniela reconheceu a sua colega Sara de imediato pelo tilintar da tonelada de pulseiras com que ela adora decorar tudo o que é braço. De cada vez que ela passa de um lado para o outro parece que um rebanho de cabras anda a pastar pelos corredores da firma.
“Olá Sarita. Já tomaste café?”
“Sim, já tomei a minha dose de cafeina. Estava mesmo de saída. Já devem estar à minha espera lá em cima na sala de reuniões,” disse fingindo-se enfadada. “Fazem todos aquela cara de poucos amigos pelo atraso, mas basta dar um ar do meu charme que lhes passa logo a telha,” disse com ar coquette. Sara era de facto uma mulher bonita, uma autêntica Barbie em estilo executivo. Mudou de assunto “Mas tu hoje estás toda gostosa... uma morenaça de fazer inveja!” comentou com um sorriso e uma notória mirada da cabeça aos pés. “Fizeram-te bem as férias. Se eu fosse gajo não me escapavas. Comia-te toda!” disse Sara fazendo uma hilariante careta e imitando o gesto do homem do Martini.
Daniela deu uma gargalhada. “Tu és mesmo lunática pá! Olha lá, que fazes tu aqui ainda? Já foste de férias?”
“Bah... bem posso esperar sentada! Enquanto aquele projecto não for concluido tenho de ficar por aqui a secar. Bem, estou atrasadíssima, tenho de ir, depois falamos tá? “ Sara arranca em passo rápido dizendo adeus. “ Depois quero saber das novidades dessas férias. Tchau!”

-*-

“Já são onze e meia?!” Daniela olhou para a janela do escritório, observando as luzes acesas de uma cidade que já recolheu a casa. Não tinha dado pelas horas passar, enbrenhada no trabalho. Era sempre assim, depois das 6 da tarde o open-space fica em silencio relaxante, ideal para progredir com maior facilidade nas tarefas em curso. Arrumou a sua secretária e dirigiu-se ao lavabos.

Não tinha pressa de chegar a casa. Aquela casa que permanecia quase vazia desde à dois anos depois das partilhas, e que fora em tempos o seu lar com Mario durante outra boa dezena de anos, ainda lhe trazia à superfície emoções muito fortes e contraditórias. Se por um lado se sentia livre de novo para procurar um amor merecedor de si, por outro persistia uma raiva imensa por se descobrir enganada e trocada por uma gaja de 25 anos, 10 anos mais nova que ela própria,”... a cabra! “
À pouco tempo soube de uns amigos comuns, que estariam já noivos e prestes a consumar a traição num Registo Civil perto de si. “Não perdem tempo estes filhos da puta! Ainda nem passaram 2 meses da saída oficial do divórcio.“
Forçou-se a mudar de pensamento. Daqui a pouco estaria refastelada numa esplanada, fazendo de conta que as férias ainda não tinham terminado.

Sara entrou nos lavabos. Aproximou-se sorrateiramente de Daniela enquanto esta lavava as mãos e pegando-lhe na cintura, exclamando alto no meio de uma gragalhada “Agora não me escapas!”
Após o susto inicial, Daniela riu-se tambem . Sara mantinha o abraço.
“Minha amiga, o que é que se passa contigo. Ultimamente passas mais tempo no mundo da lua que aqui conosco, os terráqeos.” A sua voz era agora mais suave, um pouco mais séria, mas sem abandonar o sorriso. “Não vale a pena perder horas de sono por causa de um homem qualquer.”
“Disparate! Tu não me digas uma coisa dessas nem a brincar. Estou-me positivamente a borrifar para os homens.”
“Espera.. Acho que já entendi tudo agora.” Sara faz uma cara de quem descobriu a pólvora, “Não me digas que sentes falta de preenchimento vaginal. É isso não é?”
O tom provocador e divertido desarmou Daniela que se riu divertida de mais uma das tolices descaradas de Sara.
“Sei lá... Se calhar tens razão” afirmou.
“Claro que tenho razão.” disse Sara fazendo cócegas na cintura Daniela. Beijou-a impulsivamente na face e abraçando-a por detrás, susurrou-lhe gentilmente ao ouvido enquanto a olhava pelo espelho, “Já nos conhecemos há mais de um ano. Sempre fomos muito amigas, e devo confessar-te que sempre me atraíste. Já nos imaginaste a fazer amor?”
Daniela estremeceu. Sufocou instinctivamente o impulso de rejeição de mais uma ideia disparatada e pensou "porque não..." Rodou sobre si mesma e desafiante colocou os braços ao pescoço de Sara. “Por acaso... já.”
Após um momento de imobilidade geral que pareceu uma eternidade, Daniela beijou Sara na boca. A temperatura entre as duas subiu rápidamente. Sara interrompe o beijo colocando a ponta dos seus dedos na boca de Daniela. “Queres ir até minha casa?”

-*-

Daniela nem se lembrava do percurso que a levou até casa de Sara. Fechada a porta do apartamento, Sara arrastou Daniela pela mão até ao quarto, começando a remover frenéticamente o justo vestido de Daniela, enquanto esta lhe tirava o top. Depois, deixando-se cair sobre o colchão de braços esticados para trás, ofereceu-se à sedução e ao desejo. Daniela libertou-lhe o soutien rendado cor de cereja beijando-lhe os seios, sugando e mordiscando quase até doer os seus mamilos erectos. Lentamente foi deslocando para baixo o alvo das suas caricias e beijos. Primeiro para debaixo das mamas, para os flancos sobre as costelas até à cintura, depois para o umbigo onde a lingua brincou demoradamente com o piercing que Sara sempre exibira despoduradamente. Deixando-se escorregar para baixo desapertou o botão das calças de pele dela, entreabrindo-lhe o fecho vagarosamente. Um leve aroma a sexo e a perfume caro começou a exalar daqueles quadris sedutores, enquanto lhe puxava as calças para baixo, deixando-a cada vez mais excitada e incapaz de responder pelos seus actos. Liberta de roupa, a vagina rapada e húmida de Sara, estava agora refém de uma lingua sequiosa, e palpitava desesperada por contacto fisico imediato. Daniela não se fez rogada, atirando-se ferozmente à sua presa indefesa, num interminável festim de sexo, sem regras nem tabus, por entre uivos e latidos.



Durante o mês seguinte Sara e Daniela continuaram a encontrar-se todas as noites. E todas as noites o ritual se repetia. Estavam cada vez mais próximas, viciadas uma na outra ou quase. Decidiram que Daniela se mudaria para a casa de Sara. E assim aconteceu.
Na primeira noite que Daniela ficou a viver com Sara, o sexo foi extraordinário cimentando ainda mais uma relação já de si intensa. No final da noite, extenuadas e abraçadas sobre a cama, acariciaram-se por tempos sem fim. Sara tinha a felicidade estampada no rosto.
“Dani, adivinha o que fiz hoje.” A face de Sara estava toda iluminada.
“Não faço ideia... diz-me tu.”
“Acabei tudo com ele hoje, como te prometi.” Disse radiante.
“Oh Sarita, amo-te tanto.” Daniela beijou-a apaixonadamente.

Sara espreguiçou-se. “Apetece-me um banho de imersão... vens linda?”
“Já vou meu amor. Vai enchendo a banheira, ok?”
Sara foi para a casa de banho, e o som da agua a correr pareceu hipnotizar Daniela. Momentos depois chamou : “Sarita, onde puseste o comando do ar condicionado?”
A voz meio abafada de Sara fez-se ouvir no meio do chapinhar da água. “Está em cima da minha mesa de cabeceira.”
Daniela pegou no comando. Depois levantou a moldura caída de bruços, espreitando curiosa. Com um estranho sorriso, voltou a colocar cuidadosamente a pequena moldura na mesma posição, e disse para si mesma, “A vingança serve-se fria.”

O aparelho de ar condicionado acendeu-se, soprando ar fresco para o quarto “...e aqui está um calor do caraças!” disse com uma gargalhada.

Thursday, 13 August 2009

Marina

Marina era uma mulher vistosa. A idade parecia não a beliscar apesar dos seus quarenta anos. Bem sucedida profissional e financeiramente, vivia só num 4º andar no número 63, o prédio mais recente do bairro. Não era casada e ninguém das suas relações mais próximas lhe conhecia namorado. Comentava-se lá na rua em tom divertido que seria lésbica mas em boa verdade também não existiam indícios que confirmassem ou desmentissem essa opção. Mas isso não demovia a sua vizinhança masculina da colectiva cobiça.

-*-

O sexo aconteceu naquela noite, como de costume. Na secreta opinião de Joaquim, nem bom nem mau, mas sempre deu para descarregar o stress acumulado ao longo de mais um dia de trabalho rotineiro, cujo escape habitual passa por imaginar as suas colegas de serviço semi-nuas e em poses eróticas ou de sexo explicito com sua Alteza, ele próprio.

Para Isabel o sexo era apenas um mais compasso de espera antes de adormecer, suportável apenas pela brevidade com que invariávelmente ocorria, quase sempre exausta por mais um dia passado na qualidade de doméstica à força pelo desemprego.

O sexo aconteceu naquela noite quente de verão. E como de costume, Joaquim beijou Isabel por breves instantes e ainda ofegante deixou-se escorregar no suor dos corpos para o seu lado da cama. Retomado o folego, Joaquim pegou no maço de tabaco e no isqueiro e dirigiu-se para a janela do quarto. Isabel sempre detestara o cheiro do tabaco. Apoiado no parapeito, acendeu o cigarro quando ouviu a voz de um homem exclamar alto, o mesmo tipo de exclamação que se ouve quando alguem bebeu um copo de vinho excepcional: “AAAaaah...”.

Curioso, deslocou o olhar para o arrogante emissor de tal perturbação da paz nocturna. Ficou estupefacto. O homem estava rigorosa e arrogantemente nu, fumando à varanda do apartamento "daquela vizinha toda boa, a D. Marina do 63". Afinal de contas parecia que a tipa não era fufa de todo. E pelo andar da carruagem deveria ser uma autentica fera na cama, para deixar o homem naquele estado de obsceno prazer. Olhou para trás para Isabel para lhe dar conta da novidade, mas esta já dormia profundamente enroscada para o outro lado. Quando voltou a olhar para a varanda de Marina já esta se encontrava vazia. Encolheu os ombros e foi-se deitar. Ao encostar a janela ainda foi a tempo de ouvir o mesmo sujeito tossir . “É só tabaco” pensou com desdém.

Acordou a meio da noite como se pressentisse algo. Ficou imóvel à escuta durante alguns segundos, mas quando se preparava para voltar a adormecer ouviu de novo aquela exclamação de prazer pela voz do mesmo homem. Impressionado olhou para o relógio da cabeceira e concluiu que já estariam “naquilo” à mais de 5 ou 6 horas. Logo ali desejou conhecer intimamente a misteriosa D. Marina, e fazendo aquilo que sabe fazer melhor, adormeceu por entre sonhos de fantásticas acrobacias sexuais.

-*-

Por mero acaso, Marina cruzou-se com Joaquim alguns dias depois, quando disputavam um lugar de estacionamento. Joaquim, cavalheiro, cedeu o lugar a Marina, e ela apareceu-lhe à janela do carro quando Joaquim finalmente estacionou.
“Agradeço-lhe a amabilidade.” disse Marina – “Nota-se que é um homem que sabe exactamente como agradar a uma mulher. Como se chama?”. Joaquim nem queria acreditar. A mulher dos seus sonhos ali na sua frente e interessada na sua pessoa. Fantástico.

-*-

Os meses seguintes foram salpicados de conversa de circusntancia aqui e ali. Joaquim já conhecedor de alguns hábitos de Marina, fazia o possível para chegar a casa ao mesmo tempo, não perdendo a oportunidade de se encontrar “casualmente” com ela, e sempre era mais dois ou três dedos de conversa.

Um dia Marina foi directa ao assunto:“Olhe vou ser sincera consigo. Eu nunca fui pessoa destas coisas, de engates de rua, mas quando olhei para si pela primeira vez senti uma quimica como já não sentia à muito tempo e sendo da opinião que a vida é demasiado curta para não se aproveitar os bons momentos que ela nos oferece, que tal fazer-me uma visita um destes dias? Pode ser amanhã à noite mesmo.” Joaquim hesitou na resposta e Marina continuou “Um homem como você tem concerteza a inteligência para inventar uma boa desculpa. Não me desiluda, fico à sua espera.”
Fora de si enquanto se dirigia para casa aos pulinhos, Joaquim teve alguma dificulade em controlar toda aquela excitação antes de abrir a porta de casa. Depois com um ar de aparente casualidade informou Isabel que no dia seguinte iria ficar a trabalhar até mais tarde. Isabel encolheu os ombros e continuou a fazer o jantar. “Fantástico” pensou ele – “Não podia ser mais perfeito”.

-*-

A noite seguinte chegou e Joaquim apresentou-se nervosamente à porta de Marina, sendo recebido por uma visão fantástica, saída de um daqueles websites pornográficos que tanto lhe agradava frequentar; Marina envergava as vestes de uma Dominadora. Botas de salto alto, um apertado corpete de couro que acentuava as suas curvas, cabelo apanhado ao alto e uma chibata na mão, que batia compassadamente de encontro ao cano da bota que subia até à coxa – “Quinzinho, vais ser um lindo menino e vais fazer tudo o que a Dona te mandar, não vais?!”. Joaquim acenou com a cabeça em sinal afirmativo, não cabendo em si de tanta excitação. Quem pode resistir a uma mulher deste calibre. Adivinhava-se uma noite interessante.

Num ápice viu-lhe ser posta uma coleira ao pescoço, deitado de barriga para baixo sobre uma pequena mesa, de mãos e tornozelos amarrados às pernas desta. Depois veio o toque final: uma mordaça em forma de bola colocada como se fosse um arreio para cavalos. Estava perfeitamente incapaz de se mexer ou falar o que fosse, completamente à mercê dos desejos dela.

Depois de se ter entretido a estimular Joaquim das mais diversas formas, Marina tirou de uma gaveta um objecto negro e luzidio. Depos aproximou-se dele, exibindo um reluzente e imponente dildo de 30 centimetros, que deixou deslizar perigosamente pelo corpo.

Sentada à sua frente e, gemendo num lento crescendo, entregou-se à auto-gratificação sexual durante largos momentos. Joaquim estava louco, quase a explodir de desejo. Marina teve um e outro orgasmo, contorcendo-se deliciosamente. Quando os espasmos se diluiram, levantou-se calmamente e envergando o dildo como uma adaga dirigiu-se lentamente para as costas dele. Sorrindo sussurrou-lhe carinhosamente: “Agora é a tua vez”.
"É lá! Tu não vais fazer o que eu penso que...!" Queria dizer-lhe para parar, que isso não estava nos planos e que nunca iria permitir semelhante coisa, mas da sua boca amordaçada só se percebiam gemidos. Quanto mais gemia, mais Marina ficava excitada. Queria sair dali debatendo-se histéricamente enquanto sentia o fresco do gel a ser abundantemente espalhado por entre as suas nádegas, mas era uma missão impossível. Incrédulo, não tinha ainda tido tempo para pensar se tudo não se tratava de uma brincadeira de mau gosto, já o indiscreto e tenebroso objecto sexual o penetrava bem fundo, muito para lá de todos os pudores, enquanto sem grandes pressas, Marina o satisfazia oralmente.



Cansado e humilhado, Joaquim permanecia imovel enquanto ia sendo libertando da prisão a que fora sujeito. Perdera a noção do tempo, a postura e sabe-se lá mais o quê. “Apetece-te um cigarro? Toma um dos meus... mas tens de ir fumar lá para fora” disse-lhe Marina apontando para a varanda do quarto. Em absoluto silêncio Joaquim dirigiu-se lentamente para lá de cigarro na mão, caminhando ainda curvado pelas horas passadas na mesma posição. Já do lado de fora , sentiu o fresco da noite como uma benção e esticou a coluna , soltando uma dolorosa exclamação: “AAAaaah...”

Enquanto esperava que a dor aliviasse pareceu-lhe reconhecer uma voz que tossia um pouco mais abaixo. Localizou a voz e vislumbrou a ponta acesa de um cigarro na direção da janela da sua própria casa.

Tuesday, 21 April 2009

Anabela

Semi-nua, deitou-se de costas na alcatifa felpuda no quarto. Com sorriso atrevido, puxou para cima o top transparente de renda negra, revelando os seus seios redondos e rosados. Depois, lentamente, puxou as cuequinhas para baixo, ficando a segura-las com os dedos dos pés, divertindo-se a esticar o elástico enquanto fitava Pedro com um ar maliciosamente inocente. Ele permanecia recostado no cadeirão, ar sério e perna traçada, cofiando o queixo enquanto contemplava aquela sedutora visão.

Anabela era a personificação da mulher perfeita para Pedro. Branca como a neve, roliça mas proporcional, longos cabelos ruivos compunham o quadro na perfeição. Picasso teria produzido uma outra obra-prima partindo deste modelo sem grande dificuldade. Mas o que mais atraía Pedro era o seu completo à vontade com o seu corpo nu. Intrigava-o o facto de nada do que fizessem dentro de quatro paredes, por mais imaginativo que fosse, lhe parecia alguma vez ordinário ou pornográfico, fluindo tudo com a maior naturalidade.

Rita, a sua mulher, estava em viagem e só regressava no dia seguinte. Aproveitando a oportunidade de estar só naquela noite, e depois de uns bons whiskies duplos sem gelo, resolveu entregar-se incondicionalmente aos prazeres da carne. Apesar de se encontrarem ocasionalmente, na maior parte dos casos sempre que Pedro viajava em negócios, Anabela nunca deixou de estar disponível para a satisfação de todos os desejos, mesmo os mais obscuros, e esta noite não foi excepção.

“Venha cá já seu menino mau” ronronou Anabela. Inebriado pelo quase imperceptível odor feminino, Pedro ajoelhou-se junto dela, e prontamente libertou o seu membro viril já erecto dos jeans que o sufocavam literalmente, sendo recebido com um olhar de simulado pudor e espanto.

A noite foi longa. Ofegante, Anabela deixou-se cair sobre a cama em contínuos espasmos acompanhados de exclamações de prazer entrecortadas. Pedro sentia-se exausto, dorido, mas apaziguado. Todavia Pedro não estava feliz. Na sua mente distante, revolviam-se agora outras ideias difusas e perturbadoras, mas o cansaço impedia-o de entrar em stress naquele momento, abandonando-se no torpor que o invadia lentamente. Aninhou-se em Anabela, e adormeceu profundamente.



“Pedro…” A voz aparecia-lhe quase inaudível, mas o seu som familiar começou a ecoar cada vez mais forte na sua cabeça. Os vapores dos excessos alcoólicos da noite anterior ainda lhe toldavam a razão, muito por culpa dos litros de wiskhy barato consumidos sem regra. Sobressaltado, ergueu-se num ápice, tentando melhorar com dificuldade a sua ainda turva visão. Rita estava encostada na porta do quarto de braços cruzados numa pose serena e face inexpressiva. Pedro tentou em vão controlar a aflição que lhe ruborizava as bochechas e lhe punha os olhos abertos como uma lebre em dia de abertura de caça.

“O que foi que se passou aqui?” A voz de Rita era pausada.
Pedro estava paralítico, na sua pose patética de miudo apanhado com a mão na caixa dos biscoitos.
“Por certo terás uma explicação para tudo isto, que vou adorar ouvir…”
Pedro queria falar mas as palavras morriam na garganta, asfixiando-o. Como justificar o injustificável. Nada o tinha preparado para este momento ao longo de toda a sua vida, apesar da sua longa e bem sucedida carreira de sedutor inveterado. Sempre se tinha safado impunemente às inúmeras vezes que pulara a cerca ao longo da sua relação com Rita, umas melhor outras nem por isso, mas ser apanhado em flagrante? Nunca lhe ocorreu semelhante pensamento, da mesma forma que não se pensa objectivamente na morte. Mas agora quase lhe apetecia tal sorte. Pelo menos a existência de um buraco onde pudesse desaparecer rapidamente seria muito bem-vindo.
“Rita…eu posso explicar” balbuciou de voz trémula.
“Duvido sinceramente que consigas explicar seja o que for nesse teu estado lastimável, Pedro, mas sempre podes tentar,” disse Rita sorrindo.
Pedro coloca as mãos em forma de prece.
“Não era a minha intenção, juro-te Rita, por tudo o que há de mais sagrado”
“Não era a tua intenção? Qual era então a intenção? Juro que não te estou a perceber.”
Pedro estava sem palavras, e a entrar em desespero.
Rita solta uma risada forçada. “Tinhas mesmo necessidade de fazer isso? De beber até ao coma alcoólico? de Fazeres essas figurinhas tristes que fazes sempre que te apanhas sózinho?”
Pedro estava petrificado, sem solução para o problema.
“ E sabes que mais? Eu agora não tenho pachorra para ouvir mais nada. Alem disso já estou atrasada.” desabafou. Rita olhou demoradamente em volta do quarto. A sua face revelava incredulidade. Não sabia se haveria de deixar tudo para trás, se partia para a ignorância e extravazava a raiva que a assaltava nesse instante. Optou por se acalmar. Tudo se resolveria mais tarde e a frio.
“Quero ver este quarto arrumado e impecável quando regressar, ouviste bem?! Não quero notar o mínimo sinal do que se passou aqui esta noite.”
O tom era perigosamente agressivo, mas simultaneamente ele pressentiu nessas palavras de Rita que nem tudo estaria irremediavelmente perdido. Havia ali uma réstia de esperança, quase nula, mas havia.

Antes que pudesse terminar este pensamento, Rita volta atrás, visivelmente irritada.
“E agradeço-te que tires a merda da boneca insuflável de cima da minha cama!”