Friday, 25 September 2009

Helena

Há já um bom par de anos que Helena nada sabia de Clara . Os seus caminhos cruzaram-se pela primeira vez por alturas de um jantar de antigos colegas de curso ocorrido num restaurante típico da Mouraria em Lisboa. A presença de Clara cativou-a desde o primeiro olhar e a conversa fluiu tão naturalmente e com uma intensidade tal que nem se deram conta de que, pouco a pouco, se abstraíam da presença do restante grupo. As suas personalidades pareciam "encaixar" perfeitamente uma na outra. Passaram essa noite a conversar até altas horas da madrugada, e a cada momento iam encontrado cada vez mais pontos em comum. Despediram-se cordialmente com a promessa de se voltarem a ver em breve.Depois disso, a vida retomou o seu curso normal, as memórias de situações passadas a esbaterem-se na correria do dia a dia, e Clara esfumou-se lentamente até ao esquecimento.

Recentemente, em mais uma tarde bem passada na casa de uns amigos, Helena descobriu uma foto de Clara tirada à alguns meses; Ficou deslumbrada...
Estava linda, preparada para uma noite de divertimento, numa toillete impecável, e o seu sorriso doce hipnotizou-a de imediato. Regressaram as lembraças de uma companhia agradável, da sintonia de ideias, dos seus gestos delicados e tão femininos. Helena perguntou por ela. Disseram-lhe que teria tido alguns problemas pessoais que a levaram a sair com cada vez menos frequência, até deixar de aparecer por completo. Aparentemente ninguem sabia do seu paradeiro.

Fiquou demoradamente a contemplar a fotografia, retirando prazer das memórias ainda vivas da fugaz presença na sua vida, tentando disfarçar como podia a admiração nutrida por ela, e a frustração pelo contacto perdido. Um pensamento proibido emergiu do fundo do seu ser: secretamente desejava-a, tanto fisica como emocionalmente. Queria perder-se ali mesmo e encontrar-se nos seus braços. Viajou pela imagem, acariciou-a com os olhos, e desejou-a ainda mais. Porém, e como forma de controlar esse súbito interesse obssessivo antes que alguém percebesse que algo se passava, Helena lembrou-se que isso muito provávelmente nem estaria nos planos de Clara e que se lhe revelasse tal desejo correria o risco de acabar súbitamente com uma linda amizade, que ainda nem tinha efectivamente progredido para alem daquele contacto inicial. Alem disso havia Fernando, seu marido, e uma relação longa, próspera e estável; Fernando nunca lhe tinha dado a minima razão que justificasse minimamente a quebra desse contracto, o fim do casamento. Mas, pondo a mão na consciência, esta ligação estava cada vez mais distante, e de satisfatória já ia tendo pouco. Helena não se sentia totalmente infeliz. Contudo, tambem não se sentia realizada, e essa percepção ia ganhando terreno dia após dia.

Uma vez mais, o tempo encarregou-se de paulatinamente desviar essas memórias para o fundo do seu consciente, onde não causariam estorvo às necessidades básicas de quem tem uma vida bastante activa. Mas a necessidade de ter uma amizade com tal nível de envolvimento permaneceu sempre, com mais ou menos intensidade consoante a disposição do momento, e sempre com mais força nas alturas em que se sentia só, incompreendida, ou simplesmente desafiada por gente cínica que se afirma amiga num primeiro momento, mas que de amigos nem o nome poderiam exibir. Não da amizade no sentido de uma relação duradoura; Essa já existia com Fernando e estava relativamente confortável com ela; não abdicaria dela por motivos fúteis. Simplesmente não se sentia capaz de chegar a outros níveis de relacionamento pessoal, nas quais estaria incluido todo o seu conjunto de secretas preversões, desejos e fantasias, só confessáveis a (e partilhados por) uma amizade de qualidade superior, onde a confiança e a integridade nunca são postas em causa. Helena voltou-se para a internet como modo de busca por alguem que partilhasse os mesmos sentimentos, que soubesse exactamente o significado das suas angústias, sem que a recriminasse em acto-contínuo, e que simultaneamente lhe proporcionasse a vazão dos seus fetiches. As leves aproximações ao tema que Helena raramente fizera junto de Fernando resultavam sempre no efeito contrário ao pretendido. Fernando não compreendia nem aceitava tais jogos de sedução. Para ele sexo é apenas sexo, não precisando de grandes floreados: chega-se, faz-se e acabou. Tudo o resto é superfulo.

O anonimato da internet tem a sua utilidade, e neste caso permitiu-lhe publicar um perfil de acordo com a sua secreta personalidade, tal e qual existe debaixo da sua capa de pessoa normal e sociavelmente aceite, com muitas das suas desejadas formas de ser e agir expostas abertamente e sem receio. Sempre se sentira atraída pelas prácticas do Bondage mais suave; A manipulação consentida e partilhada dos sentidos, onde o corpo é o templo perdido que se decora, explora e se usa completamente e sem tabus de nenhuma espécie, era para si a expressão máxima do sexo.




Esperou. Como numa praia, as ondas trazem e levam uma miríade de mais gente anónima que inicialmente parece preencher os seus requisitos, gente que se apresenta carinhosa ou emboída das mais altas intenções, indiferente ou mal-criada, de tudo um pouco conheceu e consequentemente ignorou. Ninguem parecia possuir essa espantosa capacidade de a surpreender pela positiva. Ao fim de algum tempo estava já resignada com o previsível e naturalmente péssimo resultado da demanda. Não lhe agradava a promiscuidade, e pretendia um tipo de relação duradoura, que a complementasse sem sobressaltos.

Um destes dias, como já se tinha tornado seu hábito, Helena voltava à internet, ao seu antro de pecado preferido, e enquanto navegava distraídamente por entre os milhares de perfis de gente próxima das suas preferências, deparou-se com uma imagem muito familiar. Uma foto de Clara! ... a mesmíssima que a tinha deixado em tempos a sonhar acordada. Desconfiada pensou: “Pode ser de alguem que tenha tido acesso à foto e a esteja a usar indevidamente como avatar”, situação que não é de todo incomum neste meio. Mas um impulso irresistível levou Helena sem pensar duas vezes a enviar uma mensagem a alguem que se identificava como Roxanne; queria ter a certeza de que esta tal de Roxanne seria de facto Clara. Na mensagem que lhe enviou, apenas referiu que gostaria muito de trocar com ela algumas ideias, um contacto de retorno e nada mais. A utilização do seu habitual nickname “Hydra”, garantia-lhe a necessária segurança, omitindo qualquer outra referência que a pudesse denunciar em caso de engano, apesar da foto no perfil ser de facto a sua, embora pouco reveladora.

A resposta veio no dia seguinte. Expectante, abriu a mensagem. Leu o seu conteúdo uma e outra vez procurando sinais que indicassem estar na presença de uma fraude. Aparentemente nada de anormal. Dizia que tinha visto o seu perfil publicado no mesmo site e que se tinha identificado com ele; que tambem procurava alguem nos mesmos moldes para futura amizade. Através do contacto que Helena lhe tinha deixado, pedia permissão para falar consigo através de um programa de mensagens instantaneas. Na resposta, aceitou o pedido, ficando à espera do seu contacto. Mas ainda não estava totalmente convencida. Afinal, não existem coincidências, apesar do que se diz.

Dias depois uma mensagem instantanea aparece no ecran do seu portátil sob o nome de uma tal de “lady_slave”, nickname de que se recordava vagamente, e que cohabitava habitualmente em paragens comuns onde o estilo de vida alternativo impera. Indiferente, respondeu ao habitual "olá tudo bem"; era mais uma mensagem tipica, similar a centenas de outras que recebia por dia no programa de chat, quase sempre inicio de uma conversa penosamente chata, sem surpresas, e rápidamente terminada antes mesmo de começar, significado de pura perda de tempo.
Do outro lado veio a resposta "Olá , chamo-me Clara". Ainda aturdida e confusa pela aparente incongruência entre um nickname obscuro e o objecto do seu desejo, iniciou um diálogo cauteloso mas afável.
As suas preces teriam sido ouvidas, e não foi preciso esperar muito para ter finalmente a certeza: era ela, a “sua”Clara. Depois de alguns anos de interregno, ei-la de volta. A felicidade de Helena alterou-lhe de imediato o discurso, abandonando a distante frieza inicial, passando a agir como uma miuda de 7 anos, excitadíssima por rever alguem muito querido e que não via há muito tempo.

Após um primeiro momento de excitação, caiu em si: tambem Clara partilhava dos seu gostos e tambem ela procurava por alguem que os satisfizesse. Estava implicito que o motivo inicial que as aproximara anónimamente tinha a ver com a realização de fantasias numa perspectiva de alguem que teria necessáriamente de ser posto à prova, e sem qualquer tipo de garantia de que seria digna de confiança. Esse percurso já não seria necessário agora, e para todos os efeitos, este reencontro bateu todas as mais loucas expectativas de Helena. Afinal, e apesar de antes já terem falado sobre tantos assuntos, nunca tiveram a ousadia nem a tentação de revelar uma à outra os seus mais intimos segredos, que agora descobriram mútuos. Estavam agora reunidas todas as condições para darem finalmente sequência à satisfação dos seus desejos mais secretos, e logo com quem mais ardentemente desejavam. Marcaram encontro para o dia seguinte. Talvez o primeiro de muitos, e quem sabe, o próprio inicio da eternidade, juntas. Já não estavam sózinhas.

Sabiam agora que já pairava no ar algo mais do que simples amizade no momento em que se conheceram anos atrás, algo que as transcendia na altura, e que as maravilhava no presente. Ouro sobre Azul. Helena reflectiu: “Será esta a cor da paixão?”